Do Recife, da Imbiribeira

Prefácio de Aderaldo Luciano

Houve um poeta apelidado Camões no séc. XVIII pernambucano, cambaleando as ruas do Recife e se enfurnando pelas ruas de Olinda. Ninguém de nossa geração declamará um verso seu, talvez nem o conheça pois os próprios contemporâneos dele nada sabiam, a não ser que se chamava Camões e bebia e vociferava versos e encômios. Ninguém soubera-lhe quando nascera, ninguém soube quando, nem como, morreu. Nasceu assombrado e morreu assombrando no velho Recife.

Houve um outro poeta, este, paraibano, arrastando seus pés, com velhas alpercatas, sertanejo assombrado, chegando no Recife no final do séc. XIX. Com mais sorte do que seu antigo colega de letras, escreveu seu nome a partir do sistema de impressão e disseminação poética criado por si: o cordel. Como os dois Camões, o primeiro, autor de Os Lusíadas e o segundo, anônimo recifense, com seus versos feitos na hora, Leandro Gomes de Barros palmilhou a capital, morando em Paulista na Rua do Motocolombó.

O Recife mágico e adornado de romantismo, terra do frevo e do maracatu, firmamento de Bandeiras e de Cabrais, não é o mesmo Recife dos poetas da rua, viventes das ruas, senhores da rua, saindo de Olinda ou Paulista, transeuntes da Ponte do Motocolombó se perdendo nos ares e brumas da Imbiribeira, cortando a cidade norte-sul. Toinho Castro nos oferece essa experiência. Poeta crescendo entre as fronteiras com o Pina, Ipsep, Jiquiá, Afogados e incursões pelo centro velho da cidade e outros territórios mais distantes, pode testemunhar um Recife real, das cheias, das padarias de bairro, das pontes assombradas, dos mistérios de outras canções.

Há muita leveza na alma de Toinho Castro. Ele traz a leveza no traço e na letra. Ele recheia a vida com essa mesma leveza, observando a todo momento, de olho aceso e lente viva, o passo lento e furtivo dos tempos. O Imbiribeira é a prova disso. O testemunho pessoal alcança o testemunho coletivo de um Recife paradoxal. Nascimento do Passo, o codificador dos passos do frevo, criador de sua coreografia, caminha lado a lado com Toinho. Abrindo ferrolhos, rangendo dobradiças, apertando parafusos, cortando a cidade a tesouras ou locomotivas. Imbiribeira é um frevo canção. Às vezes canta a solidão e dá um aperto no peito.


Publicado como prefácio da 1ª edição de Imbiribeira, em dezembro de 2020

ADERALDO LUCIANO, nascido em Areia, na Paraíba, é poeta pautado pela estética da poesia do povo. Estudioso da poesia e da música do Brasil profundo, é mestre e doutor em Ciência da Literatura, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vive o projeto Roda de Cordel – leituras e estudos, intervenções de leitura de cordéis em escolas e comunidades rurais brasileiras. Autor dos livros O auto de Zé Limeira (Confraria do Vento, 2008), Apontamentos para uma história crítica do Cordel Brasileiro (Luzeiro/Adaga, 2012), Romance do Touro Contracordel (Adaga, 2017).

ADQUIRA SEU EXEMPLAR

Dê preferência às livrarias
de verdade!
Também para Kindle!

Se você mora no Rio de Janeiro

Você também encontra IMBIRIBEIRA na Blooks Livraria da Praia de Botafogo (confira o endereço).

Retirada nas lojas: compre no site da Blooks Livraria, e retire o livro nas lojas da Praia de Botafogo ou Niterói (confira o endereço).